Quem é meu semelhante? Ensaio sobre o século XX

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Do Livro – A humanidade perdida de Alain Finkielkraut

A idéia de unidade do gênero humano, conquistada com tantas dificuldades pelos tempos modernos, já nos deu amostras suficientes no século XX de que não pode mais ser manipulada e pensada ingenuamente. Temos assistido com assombro à vaga condescendência com que o mundo observa a banalização de milhares de vidas a quem é negada a dignidade de sua condição humana. Portanto, pondera o autor, é perfeitamente legítima a revolta ética contra a lógica da história que transforma os indíviduos em meios.

Imaginar que todos os povos do mundo formam uma só humanidade não é, na verdade, consubstancial ao gênero humano. Aliais, o que durante muito tempo distinguiu os homens da maioria das outras espécies animais foi justamente o fato de que eles não se reconhecem entre si. Um gato, para outro gato, sempre foi um outro gato, um homem, ao contrário, deveria preencher determinadas condições draconianas para não ser excluído, inapelavelmente, do mundo humano. O que caracterizava o homem, a principio, era o fato de reservar zelosamente o título de homem apenas para sua comunidade.

Quando as classes sociais são quase iguais em determinado povo e os homens têm mais ou menos a mesma maneira de pensar e de sentir, cada um deles pode julgar em dado momento as sensações de todos os outros; ele lança um rápido olhar sobre si mesmo, isso lhe basta. Não há pois miséria que ele encare com indiferença e cuja extensão não possa avaliar por um instinto secreto. Não importa se trata de estrangeiros ou de inimigos: a imaginação dele o coloca imediatamente no lugar deles. Ela mescla qualquer coisa de pessoal a sua piedade, e faz com que ele próprio sofra quando dilaceram o corpo de seu semelhante.”

O ser e o Nada detalha as modalidades e as astúcias desse sonho com um virtuosismo tão minucioso quanto incansável. Pascal chamava os mortais e sua hierarquia útil mas enganosa à ordem de uma natureza necessariamente cruenta, “por mais bela que seja a comédia e tudo mais”.

Sartre questiona a própria solidez dessa natureza e usa toda a sua sagacidade para descrever a comédia do ser. Que papel esta representando um garçom de café “quando vem em direção dos clientes a passos um tanto apressados demais”, “inclina-se com solicitude um tanto exagerada” e “exprime um interesse por demais solícito pelo pedido do cliente”? É simples: “ele está fazendo o papel de garçom de café”. E “essa obrigação não é diferente da que se impõe a todos os comerciantes os seus comportamentos são todos cerimoniosos, o público exige deles que eles o desempenham como uma cerimônia; há uma dança do merceeiro, do alfaiate, do leiloeiro, pela qual eles buscam persuadir a sua clientela de que são nada mais nada menos que um merceeiro, um leiloeiro, um alfaiate.

E a lista não para por ai: toda função social é também uma ficção social. Todo carácter comporta uma parte de má-fé. Não se pode ser doutor ou professos, marginal ou pessoa decente, grande advogado ou grande escritor, temperamental ou blasé, sem dançar ser ser: Quando alguém diz ‘sou muito restrito’, na verdade está assumindo um compromisso com a cólera e, ao mesmo tempo, fazendo uma livre interpretação de detalhes ambíguos do próprio passado”. O império da representação não tem limites: o próprio Homo psycbologicus e um comediante. Nenhum rosto verdadeiro se esconde por trás da máscara e dos disfarces com que cada um de nós fantasia.

“Ser homem”, diz com Santre, Witold Gombrowicz, ” é simular o homem”. Os comportamentos menos afetados ainda têm o seu tanto de cabotinismo. Os homens que são chamados de naturais assumem uma pose para merecer essa qualidade. Desde o momento em que a existência transforma-se em essência, ela mente. Desde que o homem existe, ele finge. O que quer dizer não apenas que a vida é um teatro –  mesmo se, “por toda a parte o papel está lá esperando seu homem” – mas, também que, sendo consciência de ser, o homem não pode jamais ser o que é.

E o homem que crê na superioridade intrínseca das classes superiores? O homem que toma a ordem protocolar por uma verdade divina? Aquele que confunde a personagem com a pessoa e que, enxergando o além no aparato, experimenta um sentimento de respeito religioso diante da ostentação dos nobres, da magnificência da Igreja e das pompas do Poder? Esse homem é sem dúvida menos antipático que o bárbaro civilizado descrito e ridicularizado por Las Casas, Montaigne, Montesquieu e Lévi-Strauss pois, ao invés de excluir o outro do humano, ele exclui a si mesmo da humanidade plena; eu nunca aceitaria pertencer a um clube – como dizia Grocho Marx – que me aceitasse como sócio. Mas não apenas essas duas atitudes podem coexistir no mesmo individuo, como também um mecanismo idêntico está por trás da submissão dos “inferiores” e da arrogância dos conquistadores. Pascal é o primeiro a demonstrar isso: numa terra privada da palavra divina e onde não ressoa senão um “silêncio eterno”, apenas pela virtude da imaginação, esta “senhora do engano e da falsidade”, as diferenças de posição social entre os homens adquirem uma dimensão metafísica. “Quem outorga a reputação? Quem atribui o respeito e a veneração às pessoas, as obras, às leis, aos grandes, senão essa faculdade imaginativa? Como todas as riquezas da terra são insuficientes sem a sua aprovação!”.

Dai a nostalgia da consciência, a aspiração à plenitude, a constante tentação de preencher o vazio e a dispensa definitiva de sua humanidade que certos homens ambicionam para além das imposturas obrigatórias da comédia humana.

Hannah Arendt - Banalidade do Mal (Discurso Legendado).

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